segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A MENINA QUE ERA FELIZ


Era uma vez uma menina muito doce, sensivelmente feliz...
A felicidade era dela, só dela.
E quando digo isso, não afirmo que ela era egoísta e não dividia seus momentos felizes com ninguém. Ela vivia rodeada de pais e irmãos maravilhosos.
Na verdade, o jeito de ser feliz é que era só dela... de mais ninguém.

A doce menina, ao acordar, encontrava sua mãe sorridente, escolhendo feijão à beira de um fogão de lenha... só isso já a fazia feliz.
Em seguida, um papagaio ao canto da cozinha a celebrava (diariamente): “Acordou, flor?”
E que sorriso essa menina dava de volta para o bichinho...


Quer mais felicidade do que isso?

Essas lembranças nunca saíram de sua mente.
Um dia, sua mãe veio acordar a menina cedo... era hora de ir à escola! Seria o primeiro dia de aula! Que dia tão feliz.
Lá, diversas crianças sentadas em mesinhas, que visão linda para essa menina! Ela logo se sentou. Tinha duas professoras tão carinhosas, tão sábias em seu jeito de ensinar...
A menina jamais esqueceu sua primeira pintura... era um sol, pintado com tinta bem amarela, à dedo mesmo. Uma verdadeira obra de arte!

No dia em que ela vestiu pela primeira vez seu uniforme novo, que felicidade! Era tão bonito! Uma jardineira com saia pregueada. A cor? vermelho. E por dentro, uma camisa branca, com bolinhas também vermelhas! O detalhe especial ficava por conta de um conjunto de lápis coloridos pintado no bolso da frente da jardineira. Que orgulho! Que 
felicidade!


Nesse mesmo dia, a menina mudou de sala, mas não ficou triste. A novidade era maravilhosa para ela. Uma coleguinha nova logo lhe convidou para sentar ao seu lado, e ela, prontamente, foi. A partir daí, o mundo das letras começava a se desenhar mais claramente diante de seus olhos, e tudo a fascinava.

Não durou muito tempo até que a menina fosse transferida para outra sala mais avançada. Ela lembra com tanta felicidade o dia em que seu pai chegou com a sua cartilha nova. Tudo tão colorido, tão interessante, tão bom... Sempre disposta a fazer suas tarefinhas com muita dedicação, foi escolhida para ser a oradora da turma na solenidade de formatura do ABC!

Como esquecer aquele dia tão feliz? De vestido vermelho enfeitado, beca branca e chapéu. Ganhou de presente do seu paraninfo um ursinho azul... tão lindo! Isso não é motivo de felicidade? Para ela foi. O discurso, que iniciava com um “Queridos pais...”, a entrada, o recebimento do diploma, a valsa... tudo perfeito. Felicidade.

Engraçado como a simplicidade de momentos, tidos como insignificantes para alguns, representava para aquela menina.

Seus pais diziam “vamos à cidade!” em dias de feira, e logo ela passava a imaginá-los viajando num trem, rumo a um lugar distante. A cidade era tão perto, e, para ela, era outro mundo!
 

Mas logo o papai e a mamãe chegavam e sempre traziam alguma balinha para ela e suas irmãs. Isso era motivo de felicidade com duração de horas seguidas!

Quando a mãe cozinhava o esperado “feijão carioquinha”... com caldinho bem quente... e, de preferência, com bucho dentro. Aquilo sim era felicidade! Tão delicioso que dispensava qualquer acompanhamento! Não precisava de arroz, salada ou carne. Ali já estava completa sua refeição, com a quentura do caldo e o calor da família na mesa.

E comida de milho? Tem coisa que dava mais felicidade? A menina arrodeava logo as espigas à procura das “bonecas”. E brincava o dia todo, até que todos os cabelos do brinquedo caíam e ela comia a “boneca”. Simples assim.

Outra coisa que enchia seus olhos da mais tenra felicidade era o tempo de chuva. Era o melhor tempo para brincar! Em busca do melhor barro para fazer os móveis da casinha, era aquela expedição. Depois tinha todo o trabalho artesanal de moldagem do barro, para, enfim, montar a casinha perfeita! Brincava até anoitecer. Toda suja de lama.

Ela era mesmo muito feliz! E como sabia ser feliz!



Subia no alto das árvores para pegar aquela manga mais bonita, a mais suculenta. Ia buscar tamarina para fazer picolé para o pai. Pastoreava as ovelhas com suas irmãs e ficava sonhando acordada.

Sonhos? Tinha-os aos montes. Queria ser veterinária quando crescesse. Amava os animais. Corria descalça, de calcinha, não estava nem aí para presentes caros. As bonecas preferidas eram as de papel, as quais ela mesma desenhava, com guarda-roupa repleto e variado. Adorava os vestidos que sua mãe costurava para ela.

A felicidade era só dela. Proporcionada por muitos motivos, mas reconhecida e vivida só por ela. 
Ser feliz desse jeito deve ser gostoso, não é? 
Dá uma vontade de ser essa menina...


4 comentários:

  1. Na verdade essa menina tem um pouco de nós, de nossa vida, ela faz parte da nossa e nós fazemos parte da dela. Momentos tão simples, mas tão infinitamente felizes e descompromissados (isso que era o melhor).

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  2. linda história... me vi em alguns trechos..rsrs!!! são nesses momentos q paramos e pensamos o quanto a vida foi e é maravilhosa com a gente..as coisas simples as melhores!!!

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  3. Enchi os olhos de lágrimas, uma emoção de saber que também vivi um pouco disso,com coisas a mais e outras a menos,mas com essa mesma felicidade!

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  4. Hummmm...acho que conheço essa história e essa menina...E fazer parte disso tudo, e muito mais, é muito bom. Recordar é viver.

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